Eu, apaixonado, me confesso

Rubrica: ALMANAQUE DA MEDIOCRIDADE

. . . Integra os meus Cânones do Cinismo a tese de que as pessoas que têm adjectivos qualificativos no nome ou sobrenome, raramente ou nunca lhes fazem jus: o Francisco Honesto, era Francisco mas não era sério. O Luis Bom-Homem saiu-me, afinal, um bom estupor. Luisa dos Prazeres Bonita, além de feia era tremendamente infeliz, em sintonia com o total desencanto da Maria da Graça. Lúcias e Luzias sem luz só se não vêm de noite e a Maria da Purificação era um tal veneno que julgo terá morrido já e por auto-intoxicação. Lidei com uma Cristalina Dulce - mais uma causídica! - que nem era transparente nem doce. Conheci em Santa Comba um tipo com os apelidos Xarope Pão-Mole que, coitado, tinha a pele mais tisnada de que pão para rabanadas além de que, de xarope...só se fosse a estopada de o aturar. Passando ao Lado do Antº José Seguro (que coitado, tem a insegurança estampada no rosto e descreve-a nas enormes e desajeitadas mãos a cada aparição pública),  e teria ainda muitas mais para encher com exemplos de onomástica desmentida

Mas mais tarde ou mais cedo surge o senão, a contrariedade, a excepção, aquele momento que até o Scrooge de Dickens aguardou até ser velho. Tal foi para mim o caso da Cândida no passado sábado, o momento da cândida candura da Cândida, da tocante credulidade desta mulher, directora do mais importante organismo de investigação criminal e que acredita - sim, se uma alta-magistrada diz, é porque acredita, não fala por calculismo político ou carreirista e com reservas mentais; só diz aquilo em que acredita e acredita naquilo que diz - que diz, dizia eu se bem dizia, "O nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos".  

Na lógica da lei dos contrários (os psicólogos reconhecem quase unanimemente que os tímidos são, afinal, narcisistas exacerbados, por exemplo), o meu cinismo e pessimismo antropológicos são provavelmente a certeza íntima (e alguma soberba, devo confessar) de que um dia alguém responderia aos desafios do meu sarcasmo.  E eis que da Cândida emana esta candura que desde sábado passado me transportou para um idílico enamoramento,   apaixonado me confesso e não pela Cândida, que a minha vez de casar já lá vai, é assunto bem resolvido e arquivado (e a dela, possivelmente, também), mas pela sua tão redentora candura, algo que nem as reconhecidamente celestiais frases de oboé da abertura da Sinfonia de Mozart que quase redimia o Salieri de Milos Forman lograriam ultrapassar. Um estado de graça tal que aquilo a que mais aspiro é que o meu alzheimer seja depressa tão completo e intenso quanto o dela para ter a certeza de uma felicidade alarve inatacável - afinal a vida eterna é possível!... - e a  segurança de que já não haverá Mª José Morgado que me aflija com os seus delirantes agoiros sobre corruptos e corrupção; Eu, a candura e uma voz de fundo, cava mas perfeita - como a do Rui Morrison nos anúncios do Pingo Doce - dizendo repetidamente, numa frase melódica ao estilo do canto gregoriano: Van Dunem Vobiscum...


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