...tas velhas e outras decadências
Contava-se esta anedota nos meus tempos de major do exército (faz de conta), aliás, os mesmos tempos do então capitão - e hoje major perpétuo - Valentim de Gondomar, o homem que não só a descobriu, como até enriqueceu com a "lógica da batata": Um sargento reformado da segunda guerra mundial vivia no tugúrio duma dessas pensões de construção, salubridade e moral duvidosas em Paris; afinal, o antro que se podia permitir alugar com a obscena exiguidade da sua reforma. O quarto ao lado era, até ao limite das suas diminutas dimensões, o lupanar de uma rapariga, ela própria um espólio de guerra: esquálida, com pouca ou nenhuma graça, contemplada pela lotaria plástica com umas feições francamente prejudicadas e de temperamento depressivo-carinhoso. Vivia sem chegar a ter, felizmente, a suspeita de que o sarcasmo do acaso a fora retirar a um desses romances naturalistas que falam de gente pobre e desengraçada como os de Zola.
Uns anos antes, na França ocupada, recebia boches avulsos, uns mais, outros menos inteligíveis mas todos repartindo com ela uns marcos ora sim ora não traduzidos para francos-franceses, espumante barato e o delírio de que aquele par de horas contratadas era um regresso da guerra e o retomar de uma qualquer vida feliz de outrora. Agora que a França convalescia da guerra, mais velha, maltratada e deprimida, restavam-lhe os delírios de carinho para manter afreguesados uns quantos frequentadores, na maioria estropiados, reformados e postergados da guerra e manter a cada um deles - na sua vez - a ilusão de que ela era aquela amante segura, secreta e única. Decorriam, contudo, estes momentos de amor de aluguer mesmo ao lado do quarto-residência do sargento reformado e o estuque decadente da parede divisória não isolava mais que um painel de cartão. Para desespero do sargento, eram frequentes os dias em que a velha cama de ferro rangia, assim como aumentava o insuportável odor a percevejos que na convicção deste se deviam a estes conspícuos movimentos da cama. Para cúmulo, era frequente juntarem-se aos rangidos sincopados e ao odor acre, umas vozes ciciadas com despudor, ele a dizer "oh, oui, didon, ça cést bon, plus vite, plus vite...", ela a responder como se houvesse um engano no guião "ohh... cést si bom, hummm, plus lentement, plus lentement...", causando tudo isto uma enorme irritação ao velho sargento. Um dia, não conseguindo aguentar mais o quadro ou reprimir os nervos, o sargento bateu com o pingalim no estuque e bradou " ah non, merde, ça suffit, ooooh, vamos lá acertar a cadência, um, dois, esquerdo, direito, um dois, esquerdo, direito..."
..........
Que o lugar onde se formaram tipos como Relvas, Passos, Gaspares e correlativos são "casas de mulheres de má vida" é o próprio Medina Carreira que o diz (e ao Mário Crespo, por sinal). Por outro lado, que aquilo que a tal troika cá vem fazer com eles volta e meia não é mais virtuoso que o que se passava no lupanar de estuque, parece-me que é matéria que ninguém põe em questão. Mas houvesse ele ao menos um sargento de instrução reformado, fosse de alcains ou boliqueime, que viesse acertar a formatura...
O Cínico

Comentários
Enviar um comentário